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A importância judaica na formação brasileira como sociedade só começou a ser dimensionada em sua amplitude recentemente. Nossa perspectiva de raízes culturais e até mesmo de origem sempre giraram em torno de uma teoria que colocava sobre os europeus, indígenas e negros o papel de protagonismo em nossa formação, mas nunca aprofundo em relação as particularidades em torno desses protagonistas.

A ausência de detalhes em torno da narrativa que descreve nossas origens, gera uma sensação de profundo desconhecimento do passado em uma esmagadora maioria das famílias brasileiras. E, poucas pessoas podem ter uma herança histórica tão rica, quanto aos descendentes do casal espanhol de judeus Junca Montesinho e Micol.

Junca Montesinho ou Jacob Montesinho (nome recebido ao nascer) tem em sua vida e nos caminhos dos seus descendentes, um panorama do processo que levou os judeus sefarditas da região ibérica a exercer uma influência de grande importância no processo de estruturação econômica e cultural do Brasil, mesmo que através da discrição que era necessária em meio a situação de ilegalidade atribuída a eles. Junca Montesinho nasceu na cidade histórica de Castela na Espanha por volta de 1460, onde teve três filho com Micol, antes de partir para o município de Barcelos, Braga em 1492, seguindo uma tendencia sefardita de imigrar para Portugal devido ao temor causado pela implantação dos Tribunais do Santo Ofício na Espanha.

Já em Portugal, Junca Montesinho se batizou (juntamente com sua esposa e filhos) em 1497, por ordem de Dom Manuel, que em 1496 ao se casar com a filha de Isabella de Castella e Fernando de Aragão, tinha na conversão ou expulsão dos judeus um ponto importante no acordo pré-nupcial. Sendo também em 1497 a implantação de um endurecimento nas regras de expulsão dos judeus, onde a saída do país em recusa a uma conversão forçada, tinha como consequência a perda dos filhos menores de 14 anos que seriam criados por famílias cristãs.
Talvez pelo endurecimento das regras para imigração e a consequente perda dos filhos durante o processo de fuga, Junca Montesinho e Micol se estabeleceram em Barcelos com seus filhos, sendo até mesmo inclusos juntamente com seus familiares num documento de famílias judias antigas de Barcelos e foram citados num relatório do Santo Oficio em 1769.

Apesar da aparente estabilidade encontrada em Barcelos pelos descendentes de Junca Montesinho e Micol, que os fizeram permanecer na cidade e diferentemente de outros sefarditas, não participaram em um primeiro momento da colonização em relação ao novo mundo, não tardou para que a constante desconfiança em torno de famílias de cristãos novos, gerasse uma sensação de insegurança, o que fazia a proximidade com a Igreja um motivo de temor.
Coube a José Dantas Corrêa (octaneto de Junca Montesinho) o papel de ser o primeiro de seus descendentes no Brasil. E, seguindo uma característica de fuga do monitoramento da Igreja, José Dantas Corrêa encontrou em Acari (região do Seridó) no Rio Grande do Norte, o seu novo local de moradia, fora do radar da Igreja.

Apesar de não ter participado do primeiro momento de estruturação brasilis, a presença dos descendentes de Junca Montezinho na região do Seridó se apresenta como uma boa demonstração da influência e importância judaica para a estruturação e definição do Brasil em suas dimensões econômicas, culturais e até mesmo territoriais. O autor Helder Alexandre Medeiros de Macedo ao descrever “Guerra dos Bárbaros” (1687-1697) entre indígenas e luso-brasilis no “IV encontro internacional de História colonial” expõe o quanto as batalhas em torno da disputa dos rios Seridó e Espinhares foram de grande importância para a implantação do uso produtivo do território.

A região do Seridó que se divide entre Paraíba e Rio Grande do Norte, tem em seu desenvolvimento um forte traço judaico e na sua formação uma amostra do processo que fez do Brasil um país tão singular e que tem no judaísmo raízes que desconhecidas.

Através de Olavo de Medeiros Filho em seu livro “Velhas famílias do Seridó” se pode observar o quanto a descendência sefardita se faz presente em toda região do Seridó e em todo o forte processo de miscigenação característico do Brasil, tendo até mesmo no casamento de José Dantas Corrêa (primeiro descendente de Junca Montesinho no Brasil) com Isabel da Rocha de Meirelles a miscigenação presente, já que o autor relata que talvez a própria Isabel tenha sido uma filha de indígenas enviada a Portugal para ser educada.
Tal miscigenação maciça na região do Seridó, faz com que tenhamos uma grande possibilidade que diversos Farias, Pires, Fernandes, Gomes, Aguiar, Costa, Dantas, Correia, Pereira, Azevedo, Cunha, Conceição, Medeiros, Morais(es), entre outras famílias oriundas dessa região do Seridó sejam descendentes de judeus sefarditas ou até mesmo do próprio Junca Montesinho.

A forte influência judaica na região do Seridó e no processo de formação do que é ser brasileiro se faz presente até mesmo na terminologia em torno dos significados do nome Seridó, onde suas origens transitam entre o nativo e o hebraico.
Na Tribuna do Norte essa relação é enfatizada no texto “A civilização singular do Seridó” onde é relatado que Luis da Camara Cascudo que atribui o nome “Seridó” ao linguajar dos Tapuias “Ceri-Toh” que remete a uma descrição aos traços da região “Pouca folhagem e pouca sombra”. Mas que não se pode deixar de considerar que no hebraico termos como “sarid” e “serid” significam “sobrevivência” ou “o que escapou” o que dialoga imensamente com todo o processo vivenciado pelos judeus sefarditas como os descendentes de Junca Montesinho e Micol e muitos outros que viram no Brasil um refúgio.

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