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Todo brasileiro sabe o quão plural é a formação do nosso país e como isso faz do Brasil uma nação com traços tão singulares. Mas, apesar de componentes de formação tão diversos, o Brasil ainda expõe suas origens buscando dar uma unidade as heranças culturais e atribuindo aos africanos, europeus e indígenas o papel de únicos personagens em nossa formação…, mas você sabe o que são judeus sefarditas? Sabia que existem grandes chances de você ser descendente de algum deles?

Apesar da presença maciça dos judeus sefarditas na colonização, da forte influência deles na estruturação econômica e ocupação territorial da então colônia e principalmente como hábitos judaicos se fazem presentes em nossos costumes, principalmente na região nordeste do país, onde tal presença se fez mais intensa, juntamente com Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

Para explicar sobre os sefarditas, sua forte influência no Brasil e o motivo para sabermos tão pouco sobre a temática, utilizarei a figura de Branca Dias para que através da sua vida eu possa descrever o processo que ligou os sefarditas ao Brasil e como ao observar essa relação, nossa perspectiva de origens deve ser repensada. Branca Dias ou Branca Dias Coronel como pondera o pesquisador Candido Pinheiro Koren de Lima, sendo essa segunda opção de nome citada por uma de suas filhas numa documentação do Tribunal do Santo Ofício, e tendo o nome “Coronel” o peso que a colocaria em condição de parentesco com Abraham Sênior, que foi o último rabino-mor da Espanha, nasceu em 1515 em Viana do Castelo, Portugal, se casou com Diogo Fernandes e teve 11 filhos (4 deles já na então Capitania de Pernambuco).

Apesar de Diogo Fernandes ter ganho as terras do Engenho de Camaragibe em 1542, Branca Dias só chegou ao Brasil em 1551. Pois, assim como sua mãe e irmã, Branca Dias ficou presa pela Santa Inquisição nos anos de 1543 e 1544 e como relata Cândido Cohen, foi assim que pôde ir ao encontro do marido, pois, até mesmo as menores das punições do Santo Ofício refletiam em exclusões sociais como o sambenito que a impedia até de pedir esmolas.

Após sua chegada a capitânia de Pernambuco, mais precisamente na até então Vila Olinda, Branca Dias manteve seus hábitos judaicos, apesar dos riscos que isso a oferecia. Sua atuação se fez muito importante para a sobrevivência da cultura apesar dos riscos em praticá-las. Branca Dias também atuou na Vila Olinda como professora de pintura e cozer como é relatado no documentário do pesquisador Cândido Cohen e teve em suas alunas, muitas das suas acusadoras.

Branca Dias que faleceu em 1574, teve tão grande relevância para a manutenção de práticas de criptojudaismo no Brasil, que com a visitação do Santo Ofício em 1593, foi a pessoa mais denunciada, foi julgada e condenada pela inquisição. Além dela, duas de suas filhas também foram enviadas a Portugal e 5 dos seus 27 netos.

O casamento de Branca Dias com Diogo Fernandes se desenrolou numa grande herança cultural através de suas lutas por liberdade religiosa e cultural. Pois, além da grande quantidade de descendentes que podem ser encontrados por tudo nordeste (inclusive você pode ser um), a traços judaicos em muitas das práticas comuns aqui no Brasil como:

. Agradecer ao acordar por mais um dia de vida;
. Colocar trechos da Bíblia no canto da porta;
. Comer carne seca;
. Comer de forma diferenciada aos sábados;
. Fazer rolinhos com versículos da Bíblia e colocar em buracos da parede;
. Não comer manga com leite;
. Não contar as estrelas;
. Não deixar o chinelo virado;
. Não dormir sem camisa;
. Pedir bênção aos pais;
. Recolher cabelos e unhas após o corte e queimar;
. Ser enterrado enrolado numa rede ao invés de um caixão;
. Varrer a casa do canto para o centro, entre outros.

São todos hábitos de origem judaica que foram adaptados como forma de resistência num contexto de perseguição, seja numa tentativa de manter de alguma forma os seus hábitos ou até mesmo uma forma de minimizar os riscos que uma eventual reprodução desses hábitos fora de casa resultasse em denúncia aos Tribunais do Santo Ofício.  https://www.youtube.com/embed/HZCEhTAWl1Y?wmode=opaque

E assim como esses hábitos, a personagem Branca Dias se mantém viva no imaginário popular nordestino, mesmo que em alguns momentos se misturando com as inúmeras narrativas da literatura e teatro que se debruçaram sobre sua vida e sua forte influência tanto na vivência de sua época, quanto posteriormente com sua gigantesca descendência principalmente no Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte etc. Onde os Albuquerque, Araújo, Cavalcante, Corrêa, Dantas, Góis, Medeiros, Pereira e outros se multiplicaram com o passar do tempo. Inclusive os Holanda, que apesar de uma descendência sefardita mais forte por parte do ramo da Brites Mendes de Vasconcelos, também são descendentes da Branca Dias.

E através dos Holanda podemos ver como até mesmo os descendentes de Branca Dias e de outras famílias de origem sefardita se fizeram presente na construção cultural do Brasil ao decorrer do tempo. Como podemos observar de forma ampla citando apenas 2 desses descendentes: Sérgio Buarque de Holanda, um dos principais historiadores num primeiro momento de reflexão em torno da temática de História do Brasil e seu filho Chico Buarque de Holanda, que através da música também foi uma figura influente na construção cultural brasileira.

E é por histórias como a da Branca Dias que não se pode fechar os olhos para a grande importância dos sefarditas na construção de um Brasil e principalmente para a gigantesca possibilidade que cada um de nós tenha sim a descendência de um judeu sefaradi. Lembrando é claro que não se trata de religião e sim de uma questão de etnia. Mas existe um ponto que vai além disso, é a possibilidade de sabermos sobre nossa própria História, e sabermos mais sobre nós mesmos.

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