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Você já pensou ter um ancestral judeu sefardita? Aliás, você já pensou em ser descendente de um personagem que foi perseguido pela Inquisição Católica Portuguesa? Mesmo parecendo algo distante da realidade de muitos brasileiros, isso não é impossível; apenas vai depender do seu sobrenome, da região demográfica que você vive e de uma boa pesquisa genealógica. Sim, esses três fatores são os indicativos fundamentais da sua genealogia!

Sendo assim, quem foi Antonio Bicudo Carneiro? Quem nasceu no Vale do Paraíba, em São Paulo, no sul do Rio de Janeiro e em algumas cidades de Minas Gerais tem uma grande probabilidade de ter suas raízes vinculadas a esse cristão novo do Brasil Colonial. O interessante é que o personagem, além de ter sofrido sentença inquisitorial por práticas judaicas, é reconhecido por ser um dos primeiros povoadores de São Paulo, tendo inclusive ajudado nas bandeiras de Antonio Raposo e na descoberta do ouro, da Serra do Jaraguá e do Córrego Santa Fé. De fato, Bicudo não foi uma pessoa qualquer, afinal foi um dos responsáveis por consolidar os traços do judaísmo na trajetória do que é ser brasileiro.

É importante entender que a sua ida ao Brasil só aconteceu, porque Antonio precisava fugir da Inquisição e de toda prática que negasse sua raiz judaica. De fato, não foi um período fácil na Península Ibérica, afinal havia um medo disseminado a todos aqueles que não eram praticantes da fé cristã. Dessa forma, ser sefaradi em solo português era sinônimo de angustia e de um futuro incerto, afinal para quem seguia a Torá, só havia duas opções: se converter ao catolicismo ou passar por um Tribunal da Santa Inquisição. Lembrando que a pessoa sentenciada era culpada até que se provasse o contrário, então a probabilidade de sair ileso do Tribunal era quase nula.

Solidonio Leite Filho leva em discussão que este processo inquisitorial começou em Portugal no ano de 1498, bem no final da Idade Média, após o casamento do rei Dom Manuel com a filha mais velha dos reis de Castela e Aragão, Dona Isabel. Com essa aliança estabelecida, o terror ao povo judeu estava cada vez mais próximo, pois uma das cláusulas matrimoniais tratava claramente da expulsão, em solo português, a todos aqueles que se recusavam a se converter ao cristianismo. Sendo assim, com a continuidade das atrocidades espanholas garantidas no reino lusitano, era hora de começar o processo de genocídio e perseguição a quem não seguia a Bíblia como único e verdadeiro livro sagrado. A consequência disso foi justamente a fuga em massa para outras regiões; as terras brasílicas. Infelizmente, Antonio Bicudo Carneiro nasceu no auge da Inquisição, tendo que ver seu povo enfrentar um genocídio categórico e até, um certo tipo etnocídio cultural.

De fato, não deve ter sido fácil viver assim, afinal ninguém quer ser limitado a práticas dominantes de um determinado período da história. Saindo de Açores, Bicudo se instalou na Capitania de São Paulo e ainda conseguiu exercer cargos importantes na região, como o de juiz, vereador e ouvidor da capitania, em 1585. Casado com Isabel Rodrigues, foi pai de dois filhos e cinco filhas, tendo suas raízes todas vinculadas a ilha de São Miguel. Mas quem disse que Antonio Bicudo Carneiro não sofreria em solo brasileiro?

Para quem não sabe, houveram visitações do Santo Ofício no Brasil e, uma delas, foi justamente na capitania de São Paulo; conforme menciona o historiador Marcelo Meira Amaral Bogaciovas. De fato, a sorte é para poucos, e como é de se esperar, Antonio foi sentenciado e morto por práticas judaicas em pleno ano de 1627. Parece estranho pensar em algo assim, porém vale dizer que, nesta época, o que mais se tinha eram perseguições derivadas a origem familiar e genealógica de uma pessoa. Mas calma, porque agora vem boas notícias! Para amenizar um pouco essa declaração violenta sobre a perseguição a judeus, é importante dizer que hoje em dia o governo português dá o direito à cidadania a quem comprovar que tem um ancestral sefardita linkado na árvore familiar. Já pensou em ter um personagem histórico marcante na sua genealogia? De fato, é novidade para muitos, porém é algo que pode agora fazer parte da sua realidade.

Afinal, como descobrir e ter a honra de ser descendente de Antonio Bicudo Carneiro? Primeiro, é mais provável ser comprovado nas árvores genealógicas provindas da região de São Paulo, do Vale do Paraíba, do sul do Rio de Janeiro e de algumas cidades mineiras. Dessa forma, há de se desconfiar que há um parentesco ali embutido, se a pessoa também tiver alguns sobrenomes marcantes, como: Bicudo, Furtado, Nunes, Mendonça e outras variações. Como o falado anteriormente, o sobrenome é um dos indicativos para a descoberta sefardita da herança familiar brasileira.

Ser descendente de Antonio Bicudo Carneiro é muito mais que um direito de cidadania; ser seu descendente é expressar que houve resistência judaica e que, mesmo com práticas de extermínio de um povo, as raízes continuaram e ainda ajudaram na formação da nacionalidade brasileira. Dessa forma, quem tem essa genealogia deve se orgulhar, afinal faz parte de uma família que lutou por liberdade religiosa e cultural, frente ao domínio etnocida. Sendo assim, a questão aqui não é apenas fruto de desavenças culturais; na verdade faz parte de um discurso ligado as distinções étnicas classicizantes. Por isso, é importante defender que a fatídica história dos cristãos novos deve fazer parte do conhecimento das novas gerações, como forma de colocar em evidencia a trajetória de um povo um tanto subjugado pelas adversidades e perseguições da Inquisição de Portugal.

A vida de Antonio Bicudo e de tantos outros judeus sefarditas simbolizam assim, uma maneira de “conscientizar as futuras gerações do mal que políticas totalitárias, nacionalistas e salvacionistas causam à humanidade”, como diria Anita Novinsky.

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