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Beatriz Marques: dos Açores ao Seridó

nov 13, 2021

O acordo entre os reinos de Espanha e Portugal e dinâmicas em relação a presença judaica na península ibérica ditam os caminhos da família de Beatriz Marques. Apesar de ser filha do rico comerciante castelhano Marcos Afonso e de sua esposa Inês de Xarez, suas possem não afastaram a constante desconfiança presente em torno dos cristãos-novos.
Após a expulsão judaica da Espanha e conversão em Portugal, Beatriz Marques e sua família se estabeleceram em Ribeira Grande, na Ilha de São Miguel, principal arquipelogo de Açores, local que era extremamente estratégico para os cristão-novos, já que a constante sensação de vigilância sentida em Portugal, fazia das ilhas próximas a mais segura das opções.
Estabelecidos em Ribeira Grande, Beatriz Marques casou-se com Manoel Rodrigues Furtado, que também era cristão-novo e isso fazia com que a família ficasse constantemente sob vigilância. O casou que teve dois filhos: Matias Furtado e Beatriz Furtada, teve em Agueda Moniz, sua sobrinha órfã de sua irmã Elvira Marques uma terceira criança criada pelo casal.
E coube a Agueda Moniz, já em fase adulta em 1592, quando foi processada em presa nos tribunais de Lisboa, cita em seu interrogatório inquisitorial a manutenção de práticas judaicas por parte de Beatriz Marques. São descritos hábitos como de trocar os lençóis de cama as sextas, varrer a casa, colocar pavios novos nos candeeiros e azeite limpo a mesa. Já aos sábados Agueda relatou que em seu período de convivência com a tia, que era um hábido que a Beatriz Marquez a pedisse camisas limpas aos homens adultos da família.
Tais práticas relatadas por Agueda Moniz, exemplificam um contexto muito presente entre os cristões-novos que por assim como relata Maria José Ferro Tavares em seu texto “Entre religião e negócios, a sobrevivência”, onde a autora descreve como apesar da cristianização forçada e a dificuldade de práticas os seus hábitos judaicos, a sensação de pertencimento ainda se fazia presente entre esses cristãos-novos.
A família que viu nos Açores a possibilidade de se distanciar da constante vigilância presente em Portugal e se estabeleceu na região da Ribeira Grande, não teve na distancia frente ao continente um impeditivo para que membros da família sofressem forte vigilância, prisões como no caso da Agueda Moniz exposto acima ou até mesmo a morte como no caso de Leonor, irmã de Beatriz e Elvira Marques, que foi queimada pela inquisição.
A migração para o Brasil ocorreu a através dos tetranetos de Beatriz Marques, ainda na transição do século XVII. Rodrigo Medeiros da Rocha e Sebastião Medeiros Matos, se estabeleceram no Brasil colonial, casando-se em Santa Luzia e ganhando fama na região do Seridó devido a sua grande descendência na região. Não são raras as famílias Costa, Figueiredo, Matos, Medeiros, Nobrega, Rocha, Santos, Simões, entre outras que descendem ou tem algum grau de parentesco com os irmãos Medeiros.
A relevância dos irmãos Medeiros na região do Seridó, da continuidade a uma grande tradição de presença judaica na região, onde cristãos-novos foram determinantes na ocupação e utilização do território. E uma figura de grande relevância dessa linhagem de descendência sefardita no nordeste brasileiro foi Manuel de Medeiros Rocha, eleito sargento-mor da Vila do Príncipe, onde atualmente temos a cidade de Caicó, que é a principal cidade da região do Seridó. Além é claro, de seu filho Manoel de Medeiros Rocha que nasceu entre os anos de 1752 a 1757 e ao se casar com Ana de Araújo Pereira, residiram na Fazenda dos remédios, local onde posteriormente se formou a cidade seridoense de Cruzeda/RN após deixar de ser Distrito de Acari.
Beatriz Marques apesar de jamais ter pisado nas terras onde hoje conhecemos como Brasil, teve através de seus descendentes uma representatividade que se faz fortemente presente na região do Seridó e através de movimentações sociais ocorridas no Brasil ao decorrer do tempo, podemos encontrar relatos de descendentes também na região sul e sudeste do país, principalmente em São Paulo, o que demonstra como essa herança judaica se fez presente em todo o desenvolvimento inicial do Brasil e pode fazer parte da história pessoal de qualquer brasileiro, independente da sua região.

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